A história tradicional da tradução do Antigo Testamento para o grego é relatada na Carta de Aristéias ao seu irmão Filócrates. Ptolomeu II do Egito (285-246 a.C.) desejava que todas as obras literárias fossem traduzidas para o grego. Assim, enviou uma carta ao bibliotecário real, Demétrio de Fálaro, autorizando-o a coletar, por meio de cópia ou aquisição, todos os livros do mundo. Também escreveu uma carta para Eleazar, o sumo sacerdote em Jerusalém, requisitando seis anciãos de cada tribo, num total de setenta e dois homens, que tivessem vida exemplar e fossem eruditos na lei, para traduzir o AT para o grego. Chegando a Alexandria (Egito), os tradutores foram recebidos pelo rei com um banquete magnífico e, depois, enclausurados numa casa à beira-mar na ilha de Faros.
A tradução, feita sob direção de Demétrio, foi completada em setenta e dois dias. Quando a comunidade judaica de Alexandria se reuniu para ouvir a leitura na nova versão, Demétrio e os tradutores receberam louvores profusos e uma maldição foi pronunciada contra qualquer um que alterasse o texto, quer por acréscimo, transposição ou omissão. A obra foi lida para o rei e, de acordo com a Carta de Aristéias, ele se maravilhou com a mente do legislador. Em seguida, os tradutores foram enviados de volta à Jerusalém com presentes para si e para o sumo sacerdote, Eleazar.
Gerações posteriores enfeitaram a história. No século I d.C., Filo de Alexandria escreveu que os textos dos tradutores concordavam rigorosamente entre si, comprovando que a versão para o grego havia sido diretamente inspirada por Deus. Essa tradução foi chamada de "Septuaginta", do termo em latim para "setenta".
O patronato de Ptolomeu II pode ser observado na própria Septuaginta. Ao relacionar os animais impuros, os tradutores tiveram o cuidado de não usar o termo comum em grego para "lebre" (lagos) - o apelido do pai de Ptolomeu II - e o substituíram por "leitão" em Levítico 11.6 e "dasúpoda" em Deuteronômio 14.7. Posteriormente, a versão grega traduzida por Áquila não teve nenhuma restrição no uso do termo "lebre".
É provável que a história real das origens da Septuaginta tenha sido diferente daquela relatada na Carta de Aristéias. Depois de vários séculos vivendo no Egito, muitos judeus começaram a esquecer o hebraico. A princípio, foram improvisadas traduções orais da lei para o grego que,posteriormente, foram registradas por escrito. É provável, portanto, que a Septuaginta tenha sido traduzida por várias pessoas entre os séculos III e I a.C., porém Ptolomeu II pode ter comissionado pelo menos a tradução do Pentateuco (os cinco primeiros livros).
A septuaginta não foi bem recebida por todos os judeus. "Foi um dia tão abominável para Israel quanto o dia da confecção do bezerro de ouro, pois é impossível traduzir a Torá com exatidão" (Massekhet Sopherim - Tratado para Escribas 35a, Regra 1.7).
A Septuaginta é uma obra de valor inestimável. Depois das conquistas de Alexandre, o Grande (336-323 a.C.), o grego se torno língua oficial do Egito, Síria e outras regiões da parte oriental do Mediterrâneo. A Septuaginta passou a ser a Bíblia dos judeus que moravam fora da Palestina e, como os alexandrinos, não falavam mais o hebraico. As Escrituras se tornaram acessíveis não apenas para os judeus que não falavam mais a língua de seus ancestrais, mas também para todo o mundo de fala grega. Como Bíblia da igreja cristã primitiva de fala grega a Septuaginta é citada com frequência no Novo Testamento.
Artigo retirado do livro Atlas Histórico e Geográfico da Bíblia / Paul Lawrence - Editora SBB, 2008
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